terça-feira, janeiro 22, 2008

Proibido... a partir do poema de Carlos Lopes


Ana conduzia o seu carro, que serpenteava caminhos habituais. Dirigiria-se aos locais habituais onde encontraria as pessoas habituais e falaria dos banais assuntos habituais... Chegaria a casa e beijaria o marido com um sorriso cheio de ternura e o habitual "Olá... como correu hoje o trabalho?"
Falariam sobre o dia no escritório, sobre aquele colega mauzinho, sobre o colégio dos filhos...

Ana faria o jantar enquanto o marido daria banho aos catraios...
Jantariam juntos, ao som das já habituais mentiras do telejornal... Deitariam as crianças...
Iriam juntos para a cama. Fariam amor, com ternura, com cumplicidade, com a mestria que só duas pessoas que já se sabem decor podem fazer. Atingiriam juntos o clímax e ele, adormeceria com um suave beijo de Ana, embalado nas suas doces palavras...
"Amo-te... Adoro-te... Sou tua."

E assim foi, como em tantos outros dias. As rotinas foram cumpridas, os beijos foram dados e sentidos, as obrigações cumpridas com a ligeireza de quem faz por gosto e não cansa.

Mas naquele dia, ao serpentear os caminhos habituais, observando as paisagens habituais, Ana decidira viver o proibido.

Decidira entregar-se àquele amor


antigo, escondido...
proibido!

no qual pensava tantas vezes nas noites de insónia.
Entregar-se-ia ao proibido prazer de viver uma paixão secreta.

Naquela noite, depois de adormecer Manuel com as habituais (mas sentidas!) palavras de amor, vestiu-se como se fosse sair. Perfumou-se com essência de jasmim. Pintou os lábios de escarlate, passou eyeliner preto (que lhe realçava o tom avelã do olhar enorme...), mirou-se uma última vez no espelho e saiu, mais confiante que nunca.

Meteu-se no carro e dirigiu-se à praia. Aquela praia era o ponto de partida e de chegada. E ela sempre soube que seria sempre o ponto de retorno, de regresso, de reencontro com a sua verdadeira essência, com o seu verdadeiro ser, com o seu verdadeiro eu.


Sentou-se numa rocha e acendeu um cigarro. Há muito tinha deixado de fumar, mas guardava sempre um maço de tabaco cheio na carteira. Talvez porque velhos hábitos dificilmente se perdem, talvez porque fumar fazia parte daquele verdadeiro EU que ia procurar àquela praia...
Fumou... deixou os pensamentos fluírem com o fumo, subirem em espirais desordenadas rumo às estrelas... entregou-se ao rumor das ondas que morriam na areia em doces e quentes memórias de um amor tão intenso que ainda hoje, casada, mãe, mulher feliz - verdadeiramente! - recordava com tanto carinho... com tanta saudade!

Deixou-se estar, naquela rocha, muito, muito tempo... reviveu interiormente toda a paixão e amor que tinha por aquele homem que não via há tantos anos. Sentiu-se arrepiar, não de frio, mas de recordações das suas mãos grandes, firmes, quentes percorrendo os caminhos do seu corpo. Saboreou os seus lábios, sentiu-lhe o peso do corpo, a volúpia da paixão, a ternura do amor, tudo, intensamente, como naquele noite em que se entregara a ele, pela primeira vez, como nunca a mais ninguém.


Amava o marido, os filhos... imensamente! Intensamente! Incomensuravelmente...


Mas aquela Ana


proibida, secreta, perdida...

essa não pertencia a mais ninguém e mais ninguém a conhecia senão aquele homem, a quem se tinha entregue naquela praia e de quem se havia desencontrado, há tantos anos...


Já madrugada regressou a casa. Despiu-se, desmaquilhou-se, lavou-se. Meteu-se de mansinho na cama e procurou os braços de Manuel. Ele agitou-se na cama e murmurou "estás tão fria..." Ana implorou-lhe num sussurro "aquece-me"... E ele abraçou-a, quente. E ela, feliz, deixou-se enroscar nos braços do homem que ama...

Porque vivemos entre o mundo do quero e o mundo do queria... entre o mundo do é e o mundo do que poderia ter sido... porque ninguém ama uma só pessoa e porque guardamos um pouco dos que amámos ao longo do caminho... porque o nosso coração é uma manta de retalhos...

«Há amores
que são assim:
sempre existiram
e nunca acabarão

Nós é que não

Há amores
que não deviam
ser tão amores
como são

Nós também não»


Poema de Carlos Lopes, o MESTRE das palavras, em I Blog Your Pardon
(obrigada... inspirei-me no seu poema para rabiscar estas tortas palavras... assim que o li imaginei esta história... desculpe!)

7 comentários:

Carlos Lopes disse...

Ainda bem que sou o primeiro a comentar, amiga. É muito bonita a ideia, bonita a história, bonito o texto. O meu poema ficou muito bem aqui. Acho que até ficou mais bonito do que era. Obrigado. Muito obrigado.
Kiss.

ps: já MESTRE, acho que não mereço...

Gazela disse...

Estou a segurar o queixo para ele não se estatelar no chão... eheheh!!

Só mesmo tu... escreves com uma suavidade e um realismo extraordinários!!

Mais uma vez, amei...

Beijokas grandes!!!

The Wolf disse...

inspiraste-te? e muito bem!

Beijo

Belzebu disse...

Ó cum caraças! Onde te foste inspirar Cati? Cheguei ao fim deste post, com vontade de ler mais dez.

Até estou com os dedos encarquilhados sem saber o que escrever! Parabéns!

Aquele abraço infernal!

Joseph disse...

Cati,
Olá

Mas que linda prosa.
Gosto muito deste estilo de leitura.
Aos anos que me conheço sempre fui assim... e igual... em tudo.
Identifiquei-me momentâneamente.

Se te contasse a minha vida, arranjavas tema para muitos post(s) como este.

Adiante.
Andei da frente para trás, por isso vê o comentário do post de hoje.

Beijokas...

AJO disse...

Tens mesmo uma veia de escritora... e que boa inpiração que tiveste sim senhora. Tá mais que 5 estrelas.
BJS

htsousa disse...

Caramba, Cati! AMEI! E não consigo dizer mais nada.

Beijos!